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18|02|2010 - 10h40Modelo convincente

André Nassar, diretor Icone, fala sobre estudos que levaram os EUA a aprovar o etanol brasileiro. Fonte: Agência Fapesp

No início deste mês, a Agência Norte-Americana de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) reconsiderou sua avaliação sobre o etanol de cana-de-açúcar. A agência admitiu que, em relação à gasolina, o produto brasileiro reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 61% – e não em 26%, como estabeleciam os cálculos anteriores.

Os novos cálculos, que levaram a EPA a caracterizar o etanol brasileiro como “biocombustível avançado” – o que é um passo importante para a abertura do mercado dos Estados Unidos para o produto do Brasil – tiveram base em um novo modelo econométrico desenvolvido no Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) e pelo Instituto de Pesquisa em Políticas Alimentares e Agrícolas (Fapri, na sigla em inglês), dos Estados Unidos.

De acordo com o diretor-geral do Icone, André Meloni Nassar, os modelos anteriormente utilizados pela EPA para calcular a capacidade de redução de emissões dos biocombustíveis não levavam em conta a realidade brasileira, em especial no que diz respeito à modificação do uso da terra pelo aumento da demanda de produção de etanol.

Segundo ele, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) teve papel fundamental na intermediação política necessária para que a EPA aceitasse a contribuição dos pesquisadores brasileiros na construção de um modelo adequado. Em contrapartida, o modelo brasileiro forneceu elementos técnicos que deram à Unica os argumentos necessários para influenciar a decisão da EPA.

Nassar coordena o Projeto Temático Imulating land use and agriculture expansion in Brasil: food, energy, agroindustrial and environmental impacts, realizado no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), com o objetivo de aprimorar o modelo brasileiro.

Engenheiro agrônomo graduado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), Nassar é doutor pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP em negócios e comércio internacional.

Foi assessor econômico da Sociedade Rural Brasileira, pesquisador sênior do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial (Pensa) e pesquisador visitante da Universidade de Georgetown, em Washington (Estados Unidos). Atualmente é consultor e pesquisador em projetos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial e outras organizações internacionais. Leia a seguir trechos de entrevista concedida à Agência FAPESP.

O que precisou ser feito para que a EPA aceitasse os argumentos da Unica, caracterizando o etanol brasileiro como biocombustível avançado?
André Meloni Nassar – Para fazer os cálculos e emissões de gases de efeito estufa dentro da metodologia escolhida pela EPA, é preciso ter um modelo econométrico capaz de indicar quanta terra a cana-de-açúcar demandará no futuro e que tipo de modificação no uso de terra iria gerar a expansão da cultura de cana. Nós desenvolvemos um modelo econômico que faz exatamente isso, o qual chamamos de Brazilian Land Use Model (Blum).

Qual o diferencial desse modelo?
Nassar – Os modelos avaliam, quantitativamente, a mudança no uso da terra e as emissões de GEE a partir do crescimento da demanda por alimentos, biocombustíveis e fibras. O que o Blum tem de especial é levar em conta a realidade agrícola brasileira. Uma demanda maior de etanol iria gerar uma expansão da cultura de cana-de-açúcar, mas era preciso também calcular os efeitos indiretos. A cana pode substituir uma plantação de soja, mas, como a produção de soja também cresce, essa plantação vai acabar sendo transferida para outro lugar. O modelo leva isso em conta.

O Blum continua sendo aprimorado?
Nassar – Sim. Nosso projeto no âmbito do BIOEN-FAPESP tem o objetivo de aprimorar alguns módulos dele. Por exemplo, no contexto do BIOEN, uma questão central é saber o que está ocorrendo na fronteira agrícola. Hoje, não temos no Brasil dados que revelem se uma determinada área desmatada passou a ser utilizada para cultura de soja, cana-de-açúcar ou pastagens. Queremos incorporar esses dados ao modelo Blum, para explicar melhor como funciona a conversão de vegetação natural no Brasil. Para isso, estamos trabalhando com especialistas em imagens de satélite que vão gerar esses dados para nós. Esses resultados serão integrados, na forma de equações, ao modelo, que será rodado em diferentes cenários.

O Blum foi inteiramente desenvolvido no Brasil?
Nassar – Foi desenvolvido pelo Icone em parceria com um grupo da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, o Food and Agricultural Policy Research Institute (Fapri), que vinha fazendo cenários para a EPA. O Fapri entrou com o know-how de modelagem e nós entramos com o know how da agricultura brasileira. O modelo brasileiro que resultou dessa parceria foi fundamental para que a EPA aceitasse o etanol brasileiro como um biocombustível avançado. Os resultados gerados foram transformados em um artigo técnico que foi utilizado pela Unica para fazer sua argumentação.

Vocês foram responsáveis, então, pela construção do fundamento técnico para que a EPA reconsiderasse a eficiência do etanol brasileiro?
Nassar – Sim. A Unica fez um trabalho político espetacular. Eles abriram as portas para que pudéssemos ter discussões técnicas com a EPA. Não falávamos com a EPA diretamente, mas apresentávamos resultados nos workshops técnicos da agência. Em contrapartida, fornecemos a argumentação técnica para a Unica convencer o governo norte-americano a mudar seu ponto de vista. Houve outros atores importantes nesse processo, como o professor Isaias Macedo [do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas], que trabalhou na parte das emissões diretas do etanol, que inclui todo o ciclo de vida da cana-de-açúcar. Ele demonstrou que a EPA deveria repensar não apenas os cálculos relacionados ao uso da terra – que foi a nossa contribuição –, mas também aqueles relativos às emissões.

A EPA estava superdimensionando as emissões da produção de etanol de cana-de-açúcar?
Nassar – Sim. As emissões diretas e o impacto do uso da terra. No caso das emissões diretas, é preciso levar em conta diversas variáveis, como a emissão de gás carbônico pelas leveduras, quando a cana é fermentada, e as emissões do diesel das colheitadeiras, por exemplo. Constatou-se que a EPA, em seus cálculos, assumia que praticamente 100% da palha de cana era queimada no Brasil. Esse era um dos pressupostos equivocados, que distorciam o número final das emissões do etanol brasileiro. De alguns anos para cá a colheita tem sido intensamente mecanizada e a palha vem sendo queimada cada vez menos. Calcula-se que em São Paulo 95% da cana será colhida sem queima até 2017.

Em relação à questão de uso da terra, como foi feito para demonstrar que havia distorções?
Nassar – Os modelos partem de um cenário de base da demanda de etanol e o compara com o cenário para 2022, que é o ultimo ano do Renewal Fuel Standard – o programa norte-americano responsável por implementar a regulação relativa a combustíveis renováveis. Quando rodamos esses cenários em um modelo econômico que calcula a demanda adicional, temos uma avaliação da provável expansão da área agrícola do Brasil, incluindo todos os produtos, não só a cana-de-açúcar. Se a área agrícola aumentou em relação ao cenário de base, isso significaria que houve áreas naturais convertidas em plantações. No nosso cálculo, esse avanço da fronteira agrícola foi infinitamente menor.

Por que houve essa distorção?
Nassar – Um dos fatores que levaram o modelo utilizado anteriormente a superestimar o avanço da fronteira é que ele não considerava as pastagens. Sabemos que isso é muito importante no cálculo, porque a expansão de culturas de grãos e cana-de-açúcar utiliza frequentemente áreas de pastagens. A pecuária pode ser intensificada e, por isso, passa a produzir a mesma quantidade de carne e leite com uma área menor.

Até que ponto os erros de cálculo da EPA levaram a subestimar a eficiência do etanol brasileiro?
Nassar – Os cálculos preliminares feitos pela EPA indicavam que o etanol de cana-de-açúcar reduzia em apenas 26% as emissões de dióxido de carbono em relação à gasolina. Só com os melhoramentos na metodologia de cálculo de uso da terra feitos pelo Icone, a redução constatada foi de 52% – o que já caracterizaria o etanol brasileiro como biocombustível avançado. No fim, concluíram que as reduções eram de 61% em relação à gasolina.

Isso garante a abertura do mercado norte-americano para o etanol brasileiro?
Nassar – Foi um primeiro passo fundamental e acredito que é questão de tempo até que haja uma abertura. Mas ainda há um longo caminho pela frente. De fato, o etanol de milho nunca será tão eficiente e não chegará a ser considerado um biocombustível avançado. A legislação norte-americana tem um mandato de consumo de etanol avançado que, a partir dessa decisão da EPA, deverá ser atendido sobretudo pelo etanol de cana-de-açúcar.

Quais serão os próximos passos desse processo?
Nassar – Um primeiro passo será superar o problema tarifário. A tarifa norte-americana para o etanol de cana, de US$ 0,14 por galão, é proibitiva, dependendo do preço do etanol. Com isso não se consegue garantir o mercado. Se o preço do petróleo estiver baixo, como agora, não se consegue exportar. Agora temos que torcer para que os norte-americanos concluam que a redução das tarifas é uma necessidade para garantir o etanol avançado de que precisarão. Por trás disso, teremos uma pesada discussão política.

A abertura do mercado, então, não ocorrerá tão rapidamente?
Nassar – Não é para amanhã. Mesmo porque o mercado norte-americano está superabastecido com milho. A discussão vai ficar de fato incontornável quando o milho chegar ao limite. Isso deverá acontecer, mas não sabemos exatamente quando. A legislação norte-americana também impõe um mandato de consumo de etanol não-avançado e o milho está chegando nesse ponto.

Há outros obstáculos à abertura do mercado, além das tarifas?
Nassar – Sim, há muita coisa. Um fator importante e difícil é que as empresas brasileiras terão que aprender a lidar com o sistema norte-americano de certificados, por exemplo. Ao comprar etanol para misturar à gasolina, é preciso certificar essa mistura. Quem usar o etanol de cana-de-açúcar irá gerar menos emissões do que aqueles que misturarem o etanol de milho, considerando a mesma quantidade do biocombustível. Portanto, quem usa a mistura de etanol de cana poderá gerar créditos e vendê-los aos que usam a mistura de etanol de milho. Para adequar-se a esse sistema, as empresas brasileiras terão que ser cadastradas e, para isso, há uma série de comprovações necessárias.

Se o mercado fosse aberto e as tarifas suprimidas repentinamente, o Brasil conseguiria dar conta da alta demanda de etanol que seria gerada?
Nassar – Não, mas essa redução repentina de tarifas não vai ocorrer. À medida que as tarifas caírem – o que só ocorrerá quando os norte-americanos precisarem de fato do nosso etanol –, as empresas brasileiras investirão mais e se adaptarão ao mercado no ritmo em que a demanda aumentar. É possível até mesmo que empresas norte-americanas queiram investir no Brasil para produzir etanol de cana aqui.


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