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21|05|2010 - 11h50USP desenvolve fibra de cana com proteína de crustáceos

Futuramente o material poderá ser usado como bandagens e curativos. Fonte: UDOP.

O reaproveitamento de materiais que iriam para o lixo tem contribuído não só para a economia de recursos naturais e de energia como para a criação de produtos em diversas áreas, inclusive na de saúde. Resíduos abundantes na indústria do álcool e da pesca, o bagaço da cana-de-açúcar e a quitosana (proveniente da quitina extraída da carapaça de crustáceos) incentivaram uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) que resultou em uma fibra com enorme potencial medicinal. A partir do acréscimo de enzimas e medicamentos específicos, a equipe da Faculdade de Ciências Farmacêuticas conseguiu obter um material que, no futuro, poderá ser usado como bandagens e curativos, e originar roupas apropriadas para pacientes feridos ou com queimaduras graves.

O objetivo da pesquisa é obter um tecido inteligente que não só proteja, mas também trate a área pretendida, conforme a necessidade. Para isso, os cientistas tiveram a ideia de unir a fibra obtida da celulose do bagaço e da palha da cana-de-açúcar às propriedades medicinais da quitosana. "A quitina é um polímero (macromolécula) extraído da carapaça de crustáceos (caranguejo, camarão, lagosta) e pode ser convertida em vários derivados, sendo um deles a quitosana, que possui propriedades bactericidas, fungicidas e cicatrizantes com grande capacidade de absorção de umidade. É um polímero abundante e um resíduo da indústria da pesca", explica a professora Silgia Aparecida da Costa, do curso de têxtil e moda da escola de artes, ciências e humanidades da USP. Além dela, participam do estudo a pesquisadora Sirlene Maria da Costa, do Centro de Têxteis Técnicos e Manufaturados do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), e o professor e coordenador do projeto, Adalberto Pessoa Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas.

Segundo os pesquisadores, pacientes portadores de necessidades especiais, que costumam desenvolver feridas na superfície da pele também conhecidas como úlceras de pressão (1) podem se beneficiar da técnica, no futuro. "Um curativo com a presença de quitosana, quando colocado sobre esse tipo de ferimento, poderá absorver as secreções e atuar como bactericida, fungicida e, ao mesmo tempo, cicatrizante. Dessa forma, utilizando uma roupa inteligente, o paciente poderá evitar ou diminuir o uso de pomadas e outros medicamentos durante o tratamento", destaca Silgia. Os cientistas esclarecem, ainda, que além da quitosana, é possível incorporar enzimas, fármacos e biomoléculas (compostos químicos sintetizados) que poderão atuar de forma específica, dependendo do tipo de tratamento a ser feito.

Testes

As fibras de celulose e de quitosana produzidas pelos pesquisadores da USP encontram-se em fase de testes mecânicos, químicos e bioquímicos. O objetivo é confirmar todas as propriedades existentes. De acordo com os cientistas, a próxima etapa consiste no desenvolvimento de estruturas como tecidos e malhas ou não tecidos (com aspecto parecido ao TNT) que poderão ser utilizadas na produção de roupas especiais e bandagens. "Isso será determinado de acordo com a resistência das fibras obtidas. Quando obtivermos uma dessas estruturas, partiremos para uma nova fase de testes de propriedades, que envolverão a avaliação da capacidade de absorção do material, da resistência, das propriedades bactericidas e fungicidas, do potencial de cicatrização de ferimentos, além dos testes de tingimento e conforto", enfatiza Sirlene.

Na visão da coordenadora do mestrado em biotecnologia da Universidade Positivo, no Paraná, Vanete Soccol, a ideia é interessante e pode vir a ser de grande utilidade para aqueles que dependem de tratamentos específicos. "É preciso, porém, que além do cultivo celular, as fases subsequentes se realizem. Porém, como perspectiva do desenvolvimento de um curativo de celulose de cana, a pesquisa se mostra bastante interessante", avalia.


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