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28|06|2010 - 13h09Bandeira fincada em muitos polos

Crédito: Claudio Dellia / Valor.
CTBE em Campinas: pesquisas para manter a liderança do Brasil em bioetanol
CTBE em Campinas: pesquisas para manter a liderança do Brasil em bioetanol.

Estado de SP produz 55% do saber do país em setores como aeroespacial, bioenergia da cana e saúde. Fonte: Valor Econômico.

Se houvesse um logotipo comum a todos os polos de pesquisa tecnológica básica e aplicada do Estado de São Paulo ele apareceria exposto em muitos locais das mais variadas cidades do território. Os paulistas contam com 19 institutos de pesquisas, entre os quais o centenário Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que mantém 12 centros tecnológicos voltados para segmentos como energia, transportes, petróleo e gás, meio ambiente, construção civil, cidades e segurança. A porcentagem de 1% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é destinada pelo governo paulista para a área de pesquisa e inovação - e, como se trata do Estado mais rico da federação, fica explicado o grande volume de recursos empenhado.

Além disso, existem em todo o Estado 30 iniciativas para implantação de parques tecnológicos. Desse total, 16 já estão com credenciamento provisório no Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec): Barretos, Botucatu, Campinas (Unicamp e CPqD), Ilha Solteira, Mackenzie-Tamboré, Santo André, Piracicaba, Santos, São Carlos (ParqTec e EcoTecnológico), São José do Rio Preto, São José dos Campos, São Paulo (Jaguaré e Zona Leste) e Sorocaba.

Segundo Luciano Santos Tavares de Almeida, secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, a meta é ampliar o volume de recursos aplicados em inovação do atual 1,5% do PIB paulista para 2,3%. "A proposta é aumentar a participação dos investimentos privados tanto em pesquisa básica como em pesquisa aplicada, e para isso uma nova lei ou decreto deve sair do forno em breve."

Um centro que entrou recentemente em operação foi o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Criado no início de 2010 em Campinas (SP), a instituição trabalha a todo vapor em pesquisas que possam servir de apoio a empresas de base tecnológica e também ajudar o Brasil a se manter na liderança da produção de bionergia derivada da cana-de-açúcar, um ciclo que começou em meados dos anos 70 com o Proálcool. "O desenvolvimento de um país depende da indústria, e não se pode separar ciência e tecnologia desse processo", avalia o diretor do CTBE, Marco Aurélio Pinheiro Lima, para quem o maior desafio é integrar essas pontas.

Como região mais rica do país, o Estado está muito bem servido de centros irradiadores do conhecimento necessário para gerar e sustentar ciclos prolongados de crescimento - e não se restringem à bionergia. Além da capital paulista, de seu entorno metropolitano, da Baixada Santista e da Grande Campinas, outras cidades, como São José dos Campos, Ribeirão Preto, Piracicaba, Pirassununga, São Carlos, Bauru e Jaú, já são consideradas há tempos polos de excelência em pesquisas tecnológicas.

Estão reunidos nesses centros equipes de primeira linha dos mais diversos setores, como o aeroespacial, o bioenergético, o agrícola, o automotivo, o petrolífero e o médico-hospitalar. "O saber é a única matéria-prima inesgotável, todo o resto um dia acaba", pontifica o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz.

Para o cientista, o avanço no Estado de São Paulo é estrutural. A seu ver, a distribuição de dinheiro é decisiva para a sinergia entre as ideias e a produção de fato. Isso porque algo superior a 60% dos investimentos são feitos com recursos privados, índice mais próximo dos indicadores de países desenvolvidos, nos quais os gastos empresariais chegam a 75% do total. O restante é dividido entre os governos federal (15%) e estadual (25%). Essa relação muda fora do território paulista. Nas demais regiões 35% dos recursos vêm das empresas e 65% do setor público, a maior parte da União. Proporcionalmente há mais cientistas dentro das empresas instaladas em São Paulo. "A equação é simples: pesquisas atraem mais pesquisas."

Calculado como porcentagem do PIB nacional, o investimento do Estado de São Paulo em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) supera o de gigantes emergentes, como China, índia e o próprio Brasil. E também fica à frente daquele de nações desenvolvidas da Europa, como a Itália e a Espanha, e de todos os países da América Latina. Pelos dados de 2008, o dispêndio total dos paulistas em P&D alcançou 1,52% do PIB estadual, perfazendo cerca de R$ 15,5 bilhões.

Para o diretor da Fapesp, a performance paulista pode ser comprovada por dois indicadores. Um deles é representado pelos editais de subvenção econômica para inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). "O Estado de São Paulo fica com metade do bolo", estima. Outro indicador são os convênios e acordos de cooperação com outras agências de financiamento à pesquisa, institutos e empresas no Brasil e no exterior.

Esses cofinanciamentos resultaram em parcerias como, por exemplo, as firmadas com a Braskem, que destina R$ 50 milhões anuais para pesquisas na área petroquímica e mantém em São Paulo um Centro de Tecnologia e Inovação, onde há uma unidade especializada em vinílicos, que desenvolve e aprimora formulações, processos e produtos de policloreto de vinila (PVC). Iniciativas similares são desenvolvidas com a Dedini (do setor industrial de base) e com a Oxiteno (gás liquefeito de petróleo).

A Fapesp também financia pesquisas em parceria com a Microsoft Research. Os projetos selecionados têm como foco a aplicação de tecnologia que pode atender as demandas das comunidades rurais e urbanas no Brasil. Nessa seara ganham destaque abordagens criativas e multidisciplinares para o avanço da ciência da computação, saúde, ciências agrárias, engenharia computacional e linguística.

Também é de autoria de pesquisadores paulistas, mais especificamente do Laboratório de Bioinformática (LBI) da Unicamp, a parte mais sofisticada do sequenciamento do genoma de uma das bactérias mais utilizadas na produção de plantas transgênicas. Uma conquista que garantiu a liderança brasileira numa disputa com pesquisadores da Cereon Genomics, subsidiária da Monsanto, oito anos atrás.

Está em São Paulo ainda o Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH), ligado ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), onde são desenvolvidas pesquisas básica e aplicada, atividades ligadas à educação e à transferência de tecnologia. O CEGH é um dos dez centros de pesquisa, inovação e difusão (Cepids) da Fapesp. Os Cepids têm enfoque multidisciplinar e a missão de criar mecanismos de transferência de conhecimento para toda a sociedade. Outra referência importante para a comunidade, incluindo a internacional, é o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, autarquia vinculada administrativamente à Secretaria Estadual da Saúde.

Sob o guarda-chuva da União está a Universidade Paulista de Medicina (Unifesp) - que, embora mantenha as tradições da antiga Escola Paulista de Medicina, conta agora com "campi" em Diadema, Guarulhos, Baixada Santista e São José dos Campos, locais onde os cursos são mais diversificados e vão desde ciência da terra e vários ramos da engenharia até meio ambiente. E também a atuante agência de inovação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) dá uma importante contribuição.

O fomento à pesquisa e à inovação se estende ainda ao grupo das micro e pequenas empresas, um dos principais pilares de sustentação da economia brasileira. Foi por meio de programas como o Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) que ocorreu a associação das empresas Sima e BiomicroGen, responsáveis pelo desenvolvimento de sistemas capazes de rastrear a cadeia de carnes, o que permitiu identificar a trajetória do produto desde o nascimento do animal até a chegada do bife ao prato do consumidor. O projeto, inicialmente chamado Rastro e posteriormente Pathfinder, transformou-se numa plataforma de integração de vários softwares disponíveis no mercado, entre eles o do Sistema Brasileiro de Identificação Bovina e Bubalina (Sibov).

Ideias inovadoras como as da Sima são avaliadas frequentemente pelo professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp Sergio Robles Reis de Queiroz, coordenador de Pesquisa para Inovação da Fapesp. "A inovação não é algo que vem assim facilmente, de uma hora para outra", diz o cientista. "É preciso unir pessoas altamente especializadas numa mesma área para criar sinergia dentro de um ambiente que estimule esse processo."

Na avaliação de Queiroz, a pregação de que falta uma cultura de inovação ao empresariado brasileiro não é pertinente. "Parece que o sujeito é culpado por isso, e não é bem assim", diz. "Trata-se de uma mudança de longo prazo que demanda políticas públicas para ganhar massa crítica, ultrapassar a comunidade científica e criar visibilidade no mercado internacional."

O secretário estadual do Desenvolvimento, Tavares de Almeida, compartilha com a opinião de Queiroz. "Essa nova ordem de inovação e empreendedorismo precisa ser disseminada, e isso não é uma questão cultural", afirma. "Diria que é meio que um instinto de sobrevivência", diz, citando o exemplo de que, se houver necessidade, um soldador pode inovar ao mudar o lado da solda e com isso obter maior produtividade.

Não se trata, porém, de algo simples. "Para promover a continuidade de políticas públicas está em formulação um plano estratégico com ações e metas estabelecidas até 2020", afirma o secretário. "O objetivo é garantir a manutenção da liderança de São Paulo no cenário nacional, afinal o Estado produz 55% do conhecimento científico do país."

Almeida destaca que São Paulo, assim como o Brasil, só deu os primeiros passos nessa direção com as leis da Inovação e do Bem, que prevêem incentivos fiscais para empresas que desenvolvem inovações tecnológicas. Foi a partir desses marcos que houve uma definição de normas estaduais de estímulo. Vale lembrar que a criação da Lei Paulista de Inovação foi fundamental para começar a mudar o quadro em São Paulo. "Havia uma lacuna sobre como deveriam ser feitas as parcerias entre os institutos de pesquisa e o setor produtivo, e isso foi esclarecido."

Na visão do secretário, a cooperação é o único caminho para transformar o conhecimento em riqueza e vice-versa. Um exemplo disso é uma iniciativa da Fapesp com a Embraer em parcerias estabelecidas com diversas instituições, como o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Escola Politécnica da USP, a UFSCar, a Universidade Federal de Uberlândia (UBU) e a Universidade Federal de Brasília (UnB). "A integração dessa diversidade de experiências permite a complementaridade de distintos enfoques para responder aos problemas de engenharia associados à propagação de ruído em aeronaves para atender uma exigência do mercado internacional que entra em vigor em 2015", diz o pesquisador Julio Romano Meneghini, coordenador do Projeto Aeronave Silenciosa.

Na USP, Meneghini está à frente do Núcleo de Dinâmica e Fluidos, e na Unicamp é integrante do grupo de sistemas marítimos de produção e poços submarinos de petróleo. Ele destaca a importância da formação de pessoas altamente especializadas. "Trabalhando em grupo, esses cientistas poderão entender as demandas contemporâneas e, dessa forma, ampliar o leque de pesquisa aplicada."


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Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE)

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