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12|07|2010 - 17h36Opinião: Belo Monte e a cana

Rio Xingu: local onde será construída a usina Belo Monte
Rio Xingu: local onde será construída a usina Belo Monte.

Até 2020 o Brasil pode gerar três "Belo Montes" de energia excedente a partir da biomassa de cana. Fonte: Brasil Econômico.

* A discussão sobre o complexo Belo Monte na Bacia do Rio Xingu tem mais de vinte anos. O Brasil só utiliza 30% do seu potencial hídrico, mas as novas usinas ficam em regiões cada vez mais remotas e ambientalmente sensíveis.

Além disso, novas hidrelétricas como Madeira e Belo Monte são "usinas a fio d´água" porque dependem da vazão de um rio, diferente dos antigos projetos que represavam água e ao alagar grandes áreas, provocavam impactos ambientais maiores.

Ao armazenar pouca água, essas novas megausinas produzem energia elétrica fortemente sazonal, concentrada nos meses chuvosos (janeiro e abril), o que limita a capacidade de regularização do sistema elétrico ao longo do ano.

É precisamente por isso que precisamos de outras fontes de energia renovável, complementares à matriz elétrica brasileira.

Até o final desta década, quando a usina de Belo Monte estiver concluída, estima-se que somente a bioeletricidade sucroenergética - produzida com o bagaço e a palha da cana-de-açúcar - vai gerar excedentes da ordem de 12.200 MW médios, ou quase três vezes a garantia física atribuída a Belo Monte.

Em 2020, esse valor representará 14% da matriz elétrica brasileira. O mais espetacular é a complementaridade entre a bioeletricidade e a hidroeletricidade, já que a cana produz biomassa exatamente nos meses mais críticos, de baixa hidrologia no Centro-Sul (abril a novembro).

É assim que a bioeletricidade funciona como verdadeiro "seguro" contra níveis baixos de água nos reservatórios.

Para concretizar essas metas, precisamos de políticas públicas que contribuam claramente para a maior sustentabilidade de nossa matriz energética.

A entrada de grupos sólidos e capitalizados no setor sucroenergético deverá trazer oportunidades de novos investimentos, não somente em novas unidades sucroenergéticas (greenfields), mas principalmente na reforma das pré-existentes, chamadas retrofits.

O potencial é imenso: de 437 usinas em atividade, apenas 100 exportam bioeletricidade para a rede elétrica.

O sucesso na inserção da bioeletricidade na matriz energética passa pela realização de leilões regulares para as fontes alternativas, como os que ocorrerão em agosto deste ano, que contemplem suas especificidades. Principalmente no caso de investimentos em "retrofits," que são mais elevados.

Condições essenciais para a biolelectricidade prosperar devem incluir diretrizes sobre linhas de financiamento, tratamento fiscal a ser dado para a cadeia produtiva e minimização dos encargos de conexão, principal entrave histórico para essa fonte.

Seriam iniciativas inteiramente alinhadas com a posição de vanguarda que o governo vem assumindo nos debates internacionais sobre o clima.

As discussões em torno de Belo Monte trazem uma oportunidade de ouro para desenhar uma política setorial séria e ampla para as fontes alternativas no Brasil, que destrave a inserção das energias renováveis na matriz elétrica nacional.


Artigo de Marcos Jank, presidente da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica).


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