Anuário Brasileiro da Cana-de-açúcar em dezembro de 2011
Não é de hoje que o termo aquecimento global preocupa pesquisadores, cientistas, lideranças ambientais e políticas. Em alerta, a sociedade busca há anos medidas que minimizem os danos ao meio ambiente. No setor canavieiro do Brasil não é diferente. Por meio de estudo idealizado pelo biólogo Marcos Buckeridge, diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), desenvolvido desde 2008, grupo de cientistas aposta hoje em um sistema mais eficiente no sequestro de carbono, o chamado caminho do meio.
Os resultados obtidos até o momento apontam para a necessidade de realizar o plantio e a preservação de florestas ao redor das plantações de cana-de-açúcar. A prática justifica-se uma vez que as árvores conseguem absorver 18 vezes mais carbono que a prática canavieira, explica Buckeridge. Com isso, o impacto da produção quanto às emissões de gases de efeito estufa seria reduzido. A estratégia, batizada de caminho do meio, traria resultados positivos principalmente nas áreas onde ainda são realizadas queimadas.
Por meio do sistema, a floresta incorpora o dióxido de carbono (CO2) excedente que a monocultura não consegue absorver. Além de produzir energia limpa, o caminho do meio também consiste em regenerar florestas ao mesmo tempo e, de preferência, em meio às plantações de cana, produzidas com alta tecnologia. Sua presença junto aos pés da planta compensaria as emissões agrícolas, de transporte e de queima, afirma Buckeridge.
Com o sistema, sugerido pela equipe da Universidade de São Paulo (USP), aumento de produtividade e consolidação do biocombustível brasileiro como o mais sustentável do planeta são apenas alguns dos benefícios que a pesquisa pode tazer à canavicultura do País. Buckeridge afirma que o caminho do meio forma uma forte base científica para o desenvolvimento de etanol
sustentável e socialmente responsável.
No rumo
Mais do que ampliar o conhecimento científico sobre a cana-de-açúcar e aplicá-lo em ações para diminuir o impacto da produção à atmosfera, a pesquisa desenvolvida abre novos horizontes à cultura. Ao adotar o sistema cana-floresta, o Brasil tem a chance de mostrar, em nível mundial, que é possível unir produção de qualidade e preservação ambiental, salienta o coordenador do trabalho, Marcos Buckeridge.
Ao concluir que intercalar as culturas pode reduzir a emissão de gases de efeito estufa, o grupo passa para uma nova fase de avaliações. Até o primeiro semestre de 2012, com o auxílio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), novas dúvidas devem ser sanadas. Elas dizem respeito à área florestal necessária para minimizar os impactos. No primeiro momento, os cientistas vão realizar análises no Estado de São Paulo, maior produtor brasileiro de cana-de-açúcar. Para isso será realizado um levantamento de quantas florestas existem na região dos canaviais. Com os dados em mãos será possível estimar o quanto ainda precisaria ser plantado para que os resultados sejam bastante eficientes.
Depois de fazer o cálculo no Estado paulista, a intenção é expandir a pesquisa para as outras regiões. Nesse contexto, Buckeridge afirma que um dos objetivos é nortear uma política de manutenção do sistema. Ao optar pelo novo caminho, o setor terá papel fundamental no aumento da biodiversidade e da sustentabilidade. Mais do que isso, permitirá colher uma nova realidade e um futuro ainda mais limpo e promissor.