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01|12|2011 - 11h40A 2ª geração deverá sair do interior de São Paulo

Num futuro não tão distante, o Brasil conhecerá o biocombustível mais avançado, resultado das pesquisas dos centros de excelências e empresas do interior

Business Caipira em 01/12/2011

Da mesma forma que o álcool saiu do interior de São Paulo nos primeiros anos da década de 1970, a nova geração de combustível renovável deverá seguir o mesmo itinerário. O etanol lignocelulósico, mais facilmente entendido como de bagaço de cana, já é dominado nos vários centros de pesquisas e empresariais do Estado. De carona, o biodiesel mais avançado. São os biocombustíveis de 2ª geração, que podem dar as respostas econômicas e ambientais que o Brasil vai precisar.

Econômicas, porque as projeções apontam para a falta de etanol nos próximos anos, cujo salto na demanda triplicará os 27 bilhões de litros atuais em menos de 10 anos - mantido o crescimento da frota flex - sem a contrapartida do aumento significativo da produção. E, assim, o bagaço – e até a palha – que são desperdiçados, quando muito servindo para a autogeração de energia elétrica, poderia virar combustível, mais ainda porque se prova mais produtivo e eficiente. Haveria, assim, mais matéria-prima para geração de carburante, o que igualmente minimizaria a instabilidade das safras em decorrência de ações climáticas.

Já as respostas ambientais são óbvias: com as “novas” matérias primas gerando combustível também, menos necessidade haveria de mais áreas de cana plantadas, atenuando a exploração de velhas e novas fronteiras agrícolas. Ao mesmo tempo em que com mais energia limpa fazendo os veículos rodarem, menor necessidade de combustíveis fósseis: gasolina e diesel.

No Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Etanol (CTBE), em Campinas, há parâmetros que apontam para um incremento de até 40% na produção brasileira de álcool carburante se o etanol celulósico estivesse em operação. Lá já está entrando em operação usina piloto, quase no nível de demonstração, ao custo de R$ 69 milhões, com verba do Ministério da Ciência e Tecnologia, a qual o CTBE pertence, BNDES, Fapesp-Bioen e setor privado. Há quase 150 quilômetros dali, em São Carlos, o físico da USP, Igor Polikarpov, cujo laboratório integra uma rede de 50 instituições européias, aponta até 150% de ganho na geração de etanol.

Processamento

Traduzindo em miúdos, o bagaço de cana e a palha – assim como outras biomassas em estudos – contém lignocelulose em suas fibras, um composto químico com maior concentração de açúcares do que o xarope, mas duro de roer. É aí que está o nó da questão. “O processamento industrial, a rigor, o mundo todo conhece”, diz a pesquisadora Maria Aparecida Silva, da Engenharia Química da Unicamp, especialmente os brasileiros. Aliás, o seu Departamento de Termofluidodinâmica tem verba da Shell para pesquisas avançadas no etanol de 2ª geração, com segredos guardados a seta chaves.

A corrida é para “quebrar” essa celulose. Também não tão desconhecida assim. Das rotas tecnológicas mais pesquisadas, a mais eficaz, até agora, é a hidrólise enzimática, ou seja, fazer as enzimas processarem a matéria prima. Ocorre que as enzimas criadas pelas empresas de bioctecnologia são caras e é preciso muitas para que haja maior produtividade. Parece, portanto, que tudo quanto é centro de excelência, no Brasil e no mundo, está se trombando na mesma direção. É típico das ciências avançadas.

“Mas cada um busca um caminho, uma solução, com base em conhecimentos consolidados ou novos”, exprime Cristiane Sanchez Farina, da Embrapa Instrumentação. A engenheira química, em conjunto com a Universidade de Cambridge, na Inglaterra, “descobrimos” uma enzima considerada eficiente na degradação dos açúcares do bagaço de cana. Mas os trabalhos continuam. Também com recursos de uma petroleira internacional, cujo nome é mantido em sigilo.

É a resposta de US$ 1 milhão que todo mundo procura, metaforicamente, porque vale muito, muito mais dígitos. De olho nisso, a Dedini foi uma das pioneiras no setor privado. A tradicional fabricante piracicabana de equipamentos para processamento de cana evolui até a fase de uma usina em escala demonstrativa (5 mil litros), com apoio do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), num movimento típico de antecipação de demanda. O projeto travou porque a rota tecnológica por hidrólise ácida se mostra de certa forma poluente (os rejeitos) e também pelo custo, bem acima dos R$ 0,90 pagos, em média, na porta da usina pelo etanol convencional.

Paulo Soares, engenheiro químico da empresa, responsável pelo projeto, não desiste de continuar a procurar soluções. O mesmo que Jaime Finguerut, do CTC, cuja usina piloto com capacidade para mil litros de etanol de segunda geração está em operação pela via enzimática. O CTC, localizado em Piraciacaba, e que pertence a um consórcio de várias usinas de cana e álcool, também trabalha em parceria com a multinacional Novozymes, produtora de enzimas, para, juntos, descobrirem uma fórmula de produzir os “bichinhos” mais eficientes e com custos menores.

Biodiesel

Inviável comercialmente, agora, é também o biodiesel que a Algar Biotecnologia. A empresa 100% nacional (Grupo Ecogeo), já conhece o processo produtivo do diesel renovável pelo método não convencional. Mas para 2014, segundo Sérgio Goldemberg, gerente técnico da companhia, em associação com uma usina de São Paulo, deverá estar em fase de produção, já equacionado a questão custos. Para isso, na Federal de São Carlos (UFSCar), o professor Reinaldo Gaspar Bastos põe sua equipe em cooperação no desenvolvimento do biodiesel de cana, ao custo de R$ 3,24 milhões injetados pelo BNDES e Finep, R$ 200 mil do CNPq e mais quase R$ 400 mil da própria Algae.

Enquanto isso, já está no mercado o Biofeno, produto patenteado da Amyris, a multinacional americana de biotecnologia, que escolheu Campinas como sede para pesquisa do produto desenvolvido nos Estados Unidos. Lá, foi com o milho, aqui, com a cana. Com capital participativo da Total francesa e de fundos de pensão, a Amyris já testou por meses o hidrocarboneto misturado ao diesel de petróleo. A BR Distribuidora, da Petrobras, é parceira no negócio, junto com a Cosan, e com recursos do BNDES em 2012 estará pronta uma planta industrial em sociedade com a São Martinho, em Pradópolis. De quebra, a Cosan já começa a comercializar a graxa lubrificante, subproduto do mesmo Biofeno.

Nessa teia de pesquisadores acadêmicos e privados envolvidos diretamente na produção dos biocombustíveis do futuro, independente do estágio que cada pólo avança, há a sustentação de pesquisas interdisciplinares. Por exemplo, no Laboratório de Genômica, do Instituto de Biologia da Unicamp, onde a genética molecular desenvolvida pelo professor Gonçalo Guimarães Pereira estuda as leveduras com maior capacidade de fermentação. A ETH Bioenergia, do Grupo Odebrachet, está lá dentro com equipe própria estudando o tema com a equipe acadêmica.

Na Esalq, o principal centro de excelência agrária do País, também se estuda a cana energia, isto é, uma cana mais produtiva, que se aplicada comercialmente poderá sustentar não apenas o etanol convencional como também o de celulose. Aliás, na faculdade da USP de Piracicaba, o Departamento de Genética, comandado por Carlos Alberto Labate, extrai o etanol de segunda geração da biomassa do eucalipto. É outra opção defendida para não “ficarmos presos apenas à cana e também já se mostrou eficiente em laboratóro”, diz o professor, que afirma que várias empresas do setor de papel e celulose, como a Suzano, acompanham atentas ao desenrolar dos estudos.

Como a coisa não pára por aí, ainda lembrando da rede de pesquisadores da Unesp, nos vários campi do interior de São Paulo, o governo do Estado criou o Centro de Bioenergia de São Paulo, que vai agregar a massa crítica das três universidades paulistas e funcionará futuramente em São Carlos. A coordenadora do Programa Fapesp-Bioen, Gláucia Maria de Souza, bioquímica da USP, lembra que já foram destinados R$ 55 milhões.

Apesar de tudo, para todas essas fontes, a corrida ainda está só começando, usando da cautela típica do mundo da pesquisa. No interior de São Paulo, nas unidades da USP na capital, em centros de outros estados e, claro, nos Estados Unidos, onde, apesar dos recursos vultuosos destinados nas pesquisas com o etanol celulósico do milho e dos resultados positivos várias vezes anunciados, ainda tudo é promessa.


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Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE)

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