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02|04|2012 - 08h36Próxima escala: EUA, com turbulências

Crédito: Givaldo Barbosa / Arquivo O Globo.

Visita da Presidente Dilma Rousseff ao país na próxima semana deve abordar "Ciências sem Fronteiras" e Irã. Fonte: Valor Econômico

A presidente Dilma Rousseff convenceu-se de que encontrará, nos Estados Unidos, na semana que vem, um governo com pequena margem de manobra para apresentar boas surpresas e atender suas expectativas. Já concentrava o interesse no que se tornou seu projeto do coração, o Ciência sem Fronteiras. Após a reunião dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Nova Déli, apimentou a agenda: "Vou levar a posição dos Brics sobre Irã", disse, a membros da sua comitiva em território indiano. A atitude equivale a uma pisada de calcanhar nos calos de quem manda na Casa Branca.

Os Brics, na quinta-feira, condenaram sanções unilaterais ao Irã, e defenderam seu direito ao uso pacífico de energia nucelar. Barack Obama nem ligou. No dia seguinte, determinou ações para garantir que não faltará petróleo caso se cortem as compras do óleo iraniano e ameaçou represálias a quem negocia com o país. No sábado, a secretária de Estado, Hillary Clinton, de viagem à Arábia Saudita, indicou que a "janela de oportunidade" para o regime dos aiatolás está se fechando. Não está no script dos EUA alguma ação que perturbe a estratégia de isolar e sufocar o Irã economicamente para forçá-lo a parar com seu programa nuclear.

Dilma não tinha intenção de elevar o tema Irã ao primeiro plano. A presidente quer, muito, uma boa relação com os EUA. Ela avalia que a recuperação, ainda que lenta, da economia americana abre chances comerciais. A agenda da semana que vem traduz o interesse em basear a conversa com Obama nos temas de inovação, ciência e tecnologia: num dia, estará em Washington; noutro dia visitará instituições de ponta, a Kennedy School, de ciência política, em Harvard e o Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), que já tem parceira com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica.

A presidente gostaria de ver, pelo menos, 20 mil brasileiros nos EUA pelo Ciência sem Fronteiras, das 100 mil bolsas que o Brasil distribuirá. Dos estudantes inscritos no programa, até hoje, 40% querem ir para instituições americanas.

Mas incomoda ao governo brasileiro o atolamento da agenda econômica com os EUA; dizem faltar sinais favoráveis ao aumento do valor agregado das exportações brasileiras àquele país. Não impressionam muito os inúmeros gestos positivos vindos de Washington (o fim da barreira ao etanol brasileiro, promessa de facilitar a emissão de vistos, visitas de autoridades como o subsecretário de Estado William Burns, o primeiro com esse alto cargo a vir ao Brasil). O cancelamento da compra já acertada de aviões da Embraer pela Força Aérea Americana é mencionado no Palácio do Planalto como a mais recente decepção com o governo Obama.

Nem todos falam em decepção. Um graduadíssimo diplomata prefere um termo com perfume de Itamaraty: "perplexidade". Mas o desgosto com Obama apenas varia de grau, conforme o interlocutor. É lembrado, com irritação o episódio da visita de Obama no ano passado em que ele, do Palácio do Planalto, telefonou a Washington para dar ordens de invasão da Líbia - outro assunto que divide os dois países.

Auxiliares de Dilma dizem ser bobagem pensar que ela ficou incomodada por não ter recebido convite com status de visita de Estado, com pompa e luxo (coisas que detesta). O incômodo tem razões bem mais profundas: na visão da cúpula do governo, a forte "polarização" na política americana traz perspectivas sombrias para a relação com os EUA, e não só a do Brasil. Para o governo brasileiro, a radicalização na política interna fez Obama recolher suas intenções de exercer o poder dos EUA pela negociação e influência benigna, em lugar da força como principal instrumento.

Com o crescimento da oposição conservadora, aumenta o constrangimento da Casa Branca, diz uma autoridade brasileira, lembrando que, no Congresso americano, com poder sobre as ações do país incomparavelmente maior que o do parlamento no Brasil, congressistas saíam para beber juntos após as sessões e, hoje em dia, mal trocam cumprimentos hostis.

Embora o Irã não estivesse no radar do Palácio do Planalto como ponto importante do encontro com os EUA, a passagem por Nova Déli, na semana passada, reforçou a sensação de alarme contra o que a presidente e os demais Brics chamaram de "escalada retórica" com os iranianos. No discurso aos chefes de governo dos Brics, Dilma falou duas vezes o termo "nuclear", deixando claro o apoio do Brasil ao direito do Irã à tecnologia atômica para fins pacíficos.

Ao falar à imprensa, ela foi mais explícita, e ainda mencionou as queixas de Índia e África do Sul contra o aumento no custo do petróleo provocado por ameaças dos EUA e Israel de uma ação armada contra os iranianos. Faz lembrar o governo Lula e suas tentativas de buscar acordo com o Irã, que esgarçaram as linhas de comunicação entre Brasília e Washington. Dilma já não botava muita fé nas conversas com Obama. Agora tem um assunto explosivo como companhia na visita aos EUA.


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