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02|05|2012 - 11h38Cana transgênica, uma realidade em breve

Crédito: Luis Sousa / CTBE.
Para Hugo Molinari, variedades transgênicas de cana surgirão no mercado nos próximos anos
Para Hugo Molinari, variedades transgênicas de cana surgirão no mercado nos próximos anos.

Entrevista com Hugo Molinari, da Embrapa Agroenergia, mostra o que se pode esperar desse mercado promissor nos próximos anos

O especialista em genética e biologia molecular, Hugo Bruno Correa Molinari, da Embrapa Agroenergia, esteve na última sexta-feira (27/4) no CTBE para apresentar um seminário sobre o seu trabalho e o panorama mundial das pesquisas com transgenia em cana-de-açúcar. Dados trazidos por ele mostram que 62% do conhecimento científico gerado nessa área é proveniente dos EUA, que as maioria plantas transgênicas em estudo no momento são resistentes a herbicidas e que a primeira variedade comercial deverá surgir, pasmem, na Indonésia. Veja abaixo a entrevista com Molinari:


Quais são as vantagens que a engenharia genética traz para os programas de melhoramento de variedades de cana-de-açúcar? E quais são os desafios?
Hugo Molinari: A pesquisa na área de transgenia em cana-de-açúcar é relativamente nova, comparada a outras culturas. Entretanto, é uma ferramenta tecnológica poderosíssima. Ela permite modificar características específicas da planta, como resistência à seca, frio, herbicidas e doenças causadas por bactérias, fungos e vírus. Por outro lado, existem inúmeros desafios. O aumento da sacarose é um exemplo. Desde que os programas de engenharia genética tiveram início a alguns anos, busca-se elevar a quantidade de sacarose presente na planta. Outra pretensão é produzir uma biomassa mais adequada ao processamento destinado à produção de etanol, seja de primeira ou segunda geração. Também se investiga alterar a planta para uma maior produção de energia elétrica.

Uma problema que muitos pesquisadores da área comentam é a dificuldade de reproduzir no campo o sucesso obtido com cana transgênica em experimentos de laboratórios e casa de vegetação. O que muda com a chegada da planta modificada no canavial?
Hugo Molinari: Existe pesquisa sobre transgenia de cana acontecendo no mundo inteiro, principalmente nos países tradicionais no estudo dessa planta, como Estados Unidos, Cuba, Austrália, África do Sul e Brasil. Porém, o que se fez até hoje foi em fase de laboratório, casa de vegetação ou ensaios de campo em pequena escala. Não existe nenhuma variedade comercial. As primeiras surgirão nos próximos anos. A Indonésia anunciou que será a primeira a lançar uma variedade geneticamente modificada – tolerante à seca. Empresas multinacionais, como Syngenta e Monsanto tem previsões de lançar suas primeiras variedades no mercado daqui quatro ou cinco anos. Isso é uma realidade, será inevitável. O problema que se enfrenta atualmente nas pesquisas com cana é que, algumas vezes, o teste com material modificado para determinada característica dá certo em laboratório e casa de vegetação. Só que ao levar essa planta a campo, não funciona como deveria. Há um silenciamento gênico que pode ter inúmeras razões. Grupos diversos estão estudando o problema, mas sem um veredicto até o momento. Algo a ser contornado pelas empresas que trabalham nesse setor.

Você comentou sobre a primeira cana transgênica comercial ser criada na Indonésia ao invés de países renomados na pesquisa com cana. O que eles fizeram para sair na frente?
Hugo Molinari: Não sei porque eles saíram na frente. Acredito que tenham feito algum tipo de acordo, no qual receberam o gene modificado e deram sequência no programa de incorporação, validação e tudo mais. Receberam pronto uma das etapas mais cruciais e caras. Mesmo assim, só a parte de validação em laboratório e testes em casa de vegetação, regime de contenção e campo consumiu cerca de R$ 3 milhões. Essa conta nem inclui os testes com biossegurança.

Você citou no seminário apresentado no CTBE o alto custo de pesquisa e desenvolvimento de uma variedade de cana-de-açúcar transgênica. Como as empresas esperam recuperar tal investimento, se não há compra de sementes para o manejo dessa cultura? Qual a diferença de custo entre a criação de uma variedade de cana geneticamente modificada e uma melhorada de forma clássica?
Hugo Molinari: Este é um setor competitivo no Brasil, mas que possui algumas falhas que devem ser acertadas com a entrada das multinacionais. Um ponto a ser melhorado é a maior atenção à proteção da tecnologia. Como recuperar o investimento feito no desenvolvimento da cultura? No caso da cana não se tem a semente vendida ao produtor. Mas há outros mecanismos para viabilizar essa cobrança. Uma delas, por exemplo, é a tecnologia Plene da Syngenta. Eles conseguiram viabilizar uma maneira da cana ter uma semente. Os toletes de gema individuais são tratados e plantados por uma máquina construída em parceria com a John Deere. Coisa semelhante terá de ser feito para as variedades geneticamente modificadas. Uma empresa que gastou milhões para desenvolver certa variedade precisa ter um retorno sobre o investimento para manter o programa de melhoramento genético funcionando. Vender os bags do material com a tecnologia incorporada é uma alternativa. Quanto à comparação entre custos de programas de melhoramento convencional e de engenharia genética, até hoje não se estimou tais diferenças.


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