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25|06|2009 - 09h42Uso do solo em biocombustíveis e gases de efeito estufa

Balanço de emissão de gases estufa que resultam do uso do solo para cultivo de biocombustíveis é controverso, mostra workshop.

Fonte: Inovação Unicamp

Quanto carbono é emitido durante a produção de etanol de cana? A resposta depende da metodologia utilizada. Como há várias metodologias em uso, os órgãos internacionais de certificação não chegam a um padrão único. O workshop "Impactos Socioeconômicos, Ambientais e de Uso da Terra", realizado dia 16 de junho pelo Programa Bioen, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), mostrou que a conquista de novos mercados para o etanol e a transformação do biocombustível em commodity depende, hoje, dos resultados que a ciência do Brasil produzir a respeito das emissões da cadeia do etanol. As discussões no workshop seguiram o debate mundial — o elemento-chave no estudo das emissões de gases de efeito estufa está no uso do solo. Entender como, quanto e por qual período de tempo o solo armazena ou sequestra carbono da atmosfera será fundamental para uma análise correta dessas emissões. Contudo, as metodologias para isso ainda não estão bem-estabelecidas.

Foram palestrantes do workshop o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, e os pesquisadores Evan Delucia e Kristina Anderson-Teixeira, da Universidade de Illinois (EUA); Isaías de Carvalho Macedo, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp; Carlos Cerri, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Cena-Esalq); e Segundo Urquiaga, da Embrapa Agrobiologia. Cerca de cem pesquisadores e representantes de usinas assistiram aos painéis.

Os resultados conflitantes geraram debate no workshop. No final dos trabalhos, a coordenadora do Bioen, Glaucia Mendes de Souza, pesquisadora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), afirmou pretender que seja criado no âmbito do programa um grupo de trabalho que busque discutir as metodologias que tratam da emissão de gases estufa relacionada ao uso e à mudança do uso do solo.

Marcos Jank, da Unica

Marcos Jank, da Unica, foi enfático em sua apresentação. Ao comentar as ações do California Air Resources Board (CARB), agência ambiental da Califórnia, e da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) do governo norte-americano, Jank contou que os números referentes às emissões do etanol brasileiro considerados pelas duas entidades são superiores ao que, de fato, ocorre na produção. Essas agências tentam estabelecer índices de emissão de carbono de cada um dos combustíveis existentes hoje e também dos do futuro. "Dependemos de pesquisa, é sobre ela que se assenta o futuro de todo um setor. Precisamos de pesquisa de qualidade, divulgada em inglês e [feita de forma] rápida", disse Jank. Ele ressaltou a questão do idioma porque um dos problemas do setor está justamente em não conseguir reconhecimento dos dados que utiliza na defesa do etanol brasileiro, já que as pesquisas nacionais foram publicadas, na maioria, em língua portuguesa. Esse fato já havia sido destacado por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, que falou antes de Jank no workshop, durante a abertura dos trabalhos.

A pressa da associação do setor na obtenção de resultados científicos que possam embasar o debate internacional se explica: no momento, o País tem excedente de etanol. Ou seja, o mercado interno não está consumindo tudo o que é produzido e a saída é vender no mercado internacional. O limite à ampliação das exportações, explicou Jank, vem de barreiras tarifárias e não tarifárias. Uma das barreiras não tarifárias é o questionamento sobre a redução de emissões trazida pelo uso do etanol como biocombustível. O questionamento vem, justamente, da avaliação das emissões trazidas pela mudança do uso do solo quando a área plantada com cana-de-açúcar se expande.

O CARB e a EPA, ambos instituições dos EUA, acreditam que a expansão da cana desloca outras culturas e pastagens para áreas de floresta, especialmente a Amazônica. As emissões causadas pelo desmatamento — um impacto indireto da mudança do uso do solo —compensariam então a redução trazida pela substituição de combustível fóssil por etanol. Há também os impactos diretos — as emissões que ocorrem quando uma área de cerrado, floresta, de outras culturas ou de pastagem é substituída por cana. "Quando assumi a presidência da Unica, achei que iria dedicar a maior parte do meu tempo a tratar das barreiras tarifárias ao etanol, mas estava enganado. Minha agenda é dominada pelo tema da sustentabilidade, e o uso indireto é um assunto diário nessa agenda da Unica", destacou o empresário.

Como bem identificou Marcos Jank em sua apresentação, o debate científico por trás dessa questão está no cálculo sobre o carbono. "Estoque e sequestro de carbono é uma linha de pesquisa da maior importância hoje. As emissões são o principal quesito nas certificações [internacionais para etanol]", destacou o empresário, que foi ao workshop do Bioen para apresentar o que seria, na visão da indústria, uma agenda prioritária de pesquisa em etanol. O grande problema científico é que as contas feitas por pesquisadores e técnicos internacionais consideram dados e números muito distintos em suas metodologias para o cálculo de emissões. Mesmo no Brasil há ainda muito conflito sobre o que, de fato, ocorre com as emissões de carbono na produção do etanol. O próprio workshop da Fapesp, que focou o estudo do carbono nos solos, mostrou isso.

Macedo, da Unicamp, alertou para a falta de dados

Isaías Macedo, da Unicamp, explicou que hoje é possível fazer a análise das emissões de carbono ao longo do ciclo de vida do etanol com certa precisão. O mesmo não acontece com a avaliação dos impactos advindos do uso e das mudanças do uso da terra. De acordo com o pesquisador, um expert na questão, faltam dados e há muita imprecisão sobre o carbono e o óxido nitroso no solo. O nitrogênio constituinte do óxido nitroso é outro dos gases de efeito estufa. Os dados disponíveis, que acabam sendo utilizados para estudar o balanço de emissões, geralmente foram obtidos em pesquisas sobre solos de clima temperado, cuja dinâmica é diferente da dos solos tropicais.

O pesquisador, que já foi gerente de tecnologia da Unica, também alertou para o fato de os sistemas de produção estarem mudando, e para a diversidade dos sistemas existentes nas usinas. Por exemplo: as emissões de uma usina como a Barralcool, em Mato Grosso, não podem ser contabilizadas como as de uma usina tradicional. A Barralcool tem uma unidade produtora de biodiesel anexada à usina de etanol, que é movida com a energia produzida pela queima de bagaço de cana, resíduo da usina de etanol. O biodiesel é utilizado pela frota de veículos que trabalha no plantio e colheita da cana, e o biocombustível tem uma emissão diferente do diesel puro. A Barralcool também planta soja nas áreas de rotação de cultura, o que muda o estoque de carbono do solo. "O balanço de emissões é muito diferente nesse caso e muito mais complexo", disse.

Na palestra, Macedo também chamou a atenção para o fato de que sobre as culturas agrícolas alimentares não pesam as exigências de otimização do balanço de emissões de gases de efeito estufa. Até 2030, segundo ele, a cana-de-açúcar ocupará apenas 4% da área total disponível para agricultura no planeta; por que não estender as exigências sobre o restante? Os países que pressionam o Brasil a provar a sustentabilidade do etanol não parecem ter a mesma preocupação para minimizar as emissões na agricultura como um todo, observou o pesquisador.

"Não temos informações, ferramentas suficientes e adequadas para definir quais são os drives que precisam ser considerados na análise dos efeitos indiretos, e precisamos desenvolver metodologias e adquirir dados para estabelecer os números. Algumas das metodologias criadas hoje são fracas", criticou. O pesquisador observou que os autores estrangeiros não consideram a intensificação na criação de gado no País, que permite a liberação de áreas para agricultura. Sobre a ocupação da Amazônia com atividades agropecuárias, ele recordou que se trata de problema não relacionado à cana, pois é anterior ao período de expansão do cultivo ocorrido com o aumento da demanda por etanol, a partir do surgimento dos carros flex fuel no mercado brasileiro.

Pesquisa de Illinois diz que gramíneas são as melhores

A pesquisadora Kristina Anderson-Teixeira, da Universidade de Illinois em Urbana (EUA), apresentou resultados de uma pesquisa em que procurou quantificar as emissões considerando a capacidade do solo de sequestrar carbono. Ela contabilizou as emissões do milho, do miscanto, ou capim-elefante, do switchgrass, gramínea típica dos EUA, e analisou ainda o carbono retido pelas formações vegetais das pradarias norte-americanas, que seria a vegetação natural de vários dos locais onde se planta milho para produção de etanol. Ela também apresentou dados relacionados à cana, referentes a uma área de cultivo em Alagoas e a outra em São Paulo. Ela estudou também os cultivos de cana na Austrália e na África do Sul.

A pesquisadora constatou que, nessas áreas de cultivo de cana, o solo perde carbono, ou seja, há emissão do gás estufa. Esse carbono, contudo, é recomposto gradualmente, por meio da atividade das raízes da planta, por exemplo. Esse ganho de carbono — sequestrado da atmosfera — é encontrado em camadas mais profundas do solo. Ela verificou, ainda, que o cultivo da cana emite óxido nitroso, o que deve ser levado em conta no balanço de emissões de gases estufa.

Kristina também observou que o capim-elefante e o switchgrass estocam mais carbono no solo do que a cana. O colega de Kristina na Universidade de Illinois, Evan Delucia, tem apenas dados preliminares de uma pesquisa de campo que indicam que o milho armazena menos carbono no solo do que as gramíneas. Hoje, os EUA produzem etanol de milho, mas têm investido no desenvolvimento da tecnologia de hidrólise enzimática para fabricar etanol a partir de celulose. Para esse tipo de produção, esperam poder usar palha de milho e as gramíneas estudadas por Kristina e Delucia.

Esalq, da USP, diz que cana sequestra carbono

Carlos Cerri, do Cena-Esalq, já havia destacado a importância do solo na discussão sobre o balanço de emissões de gases de efeito estufa na produção de etanol durante apresentação feita no workshop sobre sustentabilidade realizado dias 14 e 15 de maio, em Campinas (SP), pelo Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Cerri orientou o doutorando Marcelo Galdos, cuja tese comparou os volumes de carbono presentes no solo quando a cana é colhida crua ou queimada.

Com base nos dados dessa pesquisa, Cerri afirmou, assim como Kristina, que a mudança do uso do solo, com substituição de floresta nativa por cana, promove emissão do carbono que estava armazenado na terra, mas com o tempo esse carbono é recomposto pela cana, em especial quando a palha é mantida no campo após a colheita. A pesquisadora norte-americana, contudo, não citou em sua apresentação que tipo de colheita avaliou para medir o carbono no solo. Nos gráficos mostrados por ela e por Cerri, o estoque de carbono no solo medido pela pesquisa brasileira foi maior do que nas considerações da pesquisa de Illinois, o que pode estar relacionado ao tipo de manejo.

Galdos trabalhou em experimentos localizados, em situações bastante contrastantes em termos de clima, solo e práticas de manejo da cultura: Goiana (PE), Timbaúba (PE), Pradópolis (SP), uma área de cultivo na África do Sul e mais três locais na Austrália. Nas comparações, ele notou que áreas com maior tempo sem queima, e cujos produtores mantêm parte da palhada no campo, apresentam aumento potencial de carbono no solo superficial (entre 0 e 20 centímetros de espessura a partir da superfície).

O pesquisador está agora fazendo um projeto de pós-doutorado cuja premissa é a de que a expansão da cana para áreas de pastagens degradadas promoverá aumento do estoque de carbono nessas áreas. Ou seja, a grama de um pasto mal-conservado retém menos carbono no solo do que a cana. Se ele confirmar sua hipótese, fornecerá um argumento científico fundamental para os produtores de etanol, já que os levantamentos por satélite feitos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a cana tem se expandido exatamente para essas áreas, segundo Isaías Macedo, da Unicamp.

Embrapa não viu diferença entre cana crua e queimada

Já a pesquisa apresentada por Segundo Urquiaga, da Embrapa Agrobiologia, não constatou aumento do estoque de carbono em cultivo de cana sem queima na colheita. Urquiaga não concorda com a hipótese de que a cana, substituindo pasto degradado, vá aumentar o estoque de carbono. Para ele, haverá emissão de carbono quando se trocar a grama de um pasto degradado pela cana.

Mas o pesquisador da Embrapa fez um alerta importante, resultado das pesquisas: o estoque de carbono, no cultivo de cana, é maior em profundidades superiores a 30 centímetros. Um experimento de 15 anos de duração na Embrapa mostrou que há estoque de carbono em profundidades de até 100 centímetros. Contudo, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) recomenda que, para essa medição, os pesquisadores se atenham ao carbono presente na faixa de 0 a 30 centímetros de profundidade. "Isso é útil para o Brasil?", questionou.

O problema é que a faixa de 0 a 30 centímetros representa apenas 40% do estoque de carbono armazenado em um solo cultivado com cana. Esse é um exemplo de como uma metodologia adotada internacionalmente prejudica o Brasil, pois despreza o potencial de redução de emissão de carbono no cultivo de cana ao ignorar o fato de que essa cultura, pela ação de suas raízes, em especial, promove estoque de carbono em profundidades maiores, ao contrário das gramíneas, cujo sistema radicular é menos profundo.

Outro exemplo apresentado por Urquiaga de como os dados adotados internacionalmente podem colocar o Brasil em um patamar de maior emissão está nos padrões adotados pelo IPCC para a emissão de gases estufa resultante de excrementos de animais de pastagem. A Embrapa já conseguiu resultados em pesquisas que mostram que essa emissão é muito menor do que o número padrão definido pelo painel.


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